Políticas públicas sem evidência: o custo da pressa

08 de Jan de 2026
Políticas públicas criadas na pressa, sem diagnóstico e sem evidência, tendem a falhar — e custam caro (em dinheiro e confiança).

Quando a boa intenção gera mau resultado.

Boa intenção não substitui método.

E, no campo das políticas públicas, essa é uma das lições mais ignoradas (e mais caras) na contemporaneidade.

Em contextos de crise, pressão social ou urgência política, é comum que políticas públicas sejam formuladas para responder rapidamente a um problema visível, ainda que pouco compreendido. A intenção, muitas vezes, é legítima: atender demandas sociais, reduzir desigualdades, dar respostas à opinião pública. O problema surge quando a pressa substitui o diagnóstico e a vontade política ocupa o lugar da evidência.

O nascimento apressado das políticas

Muitas políticas públicas nascem:

O resultado é um paradoxo recorrente: políticas bem-intencionadas que produzem efeitos nulos, distorcidos ou até contrários ao objetivo original.

Não raro, programas são criados para “mostrar ação”, atender agendas eleitorais ou responder a crises midiáticas, mas carecem de base empírica mínima que sustente suas escolhas.

Quando a ausência de evidência gera maus resultados

Políticas formuladas sem evidência tendem a apresentar alguns padrões previsíveis:

  • Baixa efetividade: recursos são executados, mas o problema persiste.

  • Desperdício de recursos públicos: ações custosas com impacto limitado.

  • Efeitos colaterais indesejados: incentivos mal desenhados geram distorções.

  • Dificuldade de correção: sem indicadores, não se sabe o que ajustar.

  • Descrédito institucional: a população perde confiança na capacidade do Estado.

Em vez de reduzir desigualdades, muitas vezes essas políticas as reforçam. Em vez de ampliar acesso, criam barreiras invisíveis. Em vez de promover justiça social, produzem ineficiência.

Boa intenção não é política pública

A confusão entre intenção moral e decisão técnica é um dos maiores riscos da gestão pública. A política pública não se valida pelo discurso, mas pelo impacto mensurável na vida das pessoas.

É aqui que entram perguntas fundamentais:

  • Qual é exatamente o problema que queremos resolver?

  • Quem é afetado e de que forma?

  • O que a evidência empírica indica como solução mais eficaz?

  • Quais experiências similares já foram testadas?

  • Como vamos medir sucesso, fracasso e efeitos não previstos?

Sem essas respostas, a política deixa de ser pública e passa a ser apenas uma aposta institucional!

Evidência como instrumento de responsabilidade

Adotar políticas baseadas em evidência não significa ignorar a política, o contexto ou a urgência social. Significa qualificar a decisão, reduzir riscos e aumentar a probabilidade de impacto positivo.

Em um cenário de escassez fiscal, desconfiança institucional e demandas sociais complexas, insistir em políticas sem evidência é um luxo que o Estado não pode mais se permitir.

A pergunta que precisa ser feita (antes da formulação) é simples e incômoda:

O que acontece quando políticas públicas são formuladas sem evidência?

 

Por Josbertini Clementino – Especialista em RIG e políticas públicas. Sócio-diretor da Sinergia e Diretor da ABRIG-CE.