Políticas Públicas

Transparência nas políticas públicas: mais dados, menos compreensão

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Josbertini Clementino

07 de Jun de 2026
(PraCegoVer: Pessoa de terno segurando uma tela transparente com gráficos, dados e indicadores digitais, sugerindo análise de informações e tecnologia.)
Crédito: @Anton Nita's | Via Canva

Vivemos a era prometida da transparência nas políticas públicas. Portais de dados abertos, painéis de prestação de contas e planilhas intermináveis de gastos e investimentos públicos estão todos à distância de um clique.

Entretanto a prática tem revelado um fenômeno desconfortável em que o excesso de dados brutos está gerando o oposto da clareza. Estamos criando uma opacidade por saturação.

Vejo isso recorrentemente. Um cidadão comum acessa o Portal da Transparência e depara-se com arquivos CSV enormes, linguagem técnica, códigos de classificação orçamentária indecifráveis, dados sem contexto temporal claro. O resultado é fechar o navegador em menos de 2 minutos, e não por desinteresse, mas por impotência. Transparência sem curadoria de fato não é transparência, mas transferência de trabalho. O Estado joga uma montanha de dados de políticas públicas no colo do cidadão e diz: “olha aí, vê se encontra o que deseja”. Isso não é empoderamento, é pura elisão da responsabilidade comunicativa.

Eis o paradoxo: quanto mais dados públicos disponíveis (na forma bruta, fragmentada, sem narrativa), menor a compreensão cidadã real. A assimetria informacional permanece, mudando somente o endereço. Antes, governos não revelavam dados, agora muitos os afogam num oceano sem bóias.

As consequências são graves:

-Frustração e apatia com o cidadão desistido de acompanhar e fiscalizar.

-Falsa sensação de controle, onde gestores acreditam que cumprem a Lei de Acesso à Informação apenas por disponibilizar dados.

-Enfraquecimento do controle social, pois quase ninguém tem tempo, ferramentas e saber técnico para minerar bilhões de linhas

Então, a transparência, paradoxalmente, vela em vez de revelar. Cria uma blindagem invisível: “os dados estão ali, se você não entende, o problema é seu”.
Precisamos de uma correção de rota urgente. Dados abertos são necessários, mas não suficientes.

É preciso curadoria:

-Indicadores-chave destacados

-Comparações temporais (mês a mês, ano a ano)

-Linguagem clara e visualização intuitiva

Alertas de anomalias (ex: despesa 180% acima da média)

-Narrativa explicativa mínima ao lado de cada tabela

Transparência de verdade não é despejar informação. É estruturá-la para que diferentes perfis de cidadãos, desde o engenheiro, a professora, o jovem aprendiz, consigam extrair sentido sem um curso prévio de ciência de dados.

Esse paradoxo tem solução, porém exige que os tomadores de decisão nos governos, tribunais de contas e empresas públicas abandonem o fetichismo do dado bruto e abracem o desafio da comunicação pública de qualidade.

Mais curadoria, menos caos. Mais clareza, menos bytes vazios.