A “ressaca” pós-hype da IA: 2025 virou o ano da cobrança por ROI, maturidade organizacional, dados e processo (menos mágica, mais planilha).
Quando a IA deixa de ser mágica e vira planilha?
Em uma largada de Ironman, a adrenalina mascara a dor. Você sai nadando em um ritmo insustentável, movido pela euforia do grupo e pelo barulho da torcida. Mas a prova não se ganha na largada; ela se define no km 30 da corrida, quando a euforia passa e sobra apenas o preparo real . O mercado de Inteligência Artificial viveu exatamente isso entre 2022 e 2024. O lançamento do ChatGPT foi o tiro de canhão: uma explosão de curiosidade e promessas. Mas, ao chegarmos em 2025, o mercado “quebrou” no meio do percurso. A narrativa de que a IA resolveria tudo num passe de mágica colidiu com o muro da realidade financeira. E aí está o problema: muitos fundadores e C-Levels ainda estão correndo no “ritmo de sprint” de 2023, ignorando que a regra do jogo mudou de “hype” para “ROI”.
Do estudo solitário ao “Segundo Cérebro” Essa mudança de chave — da novidade para a eficiência — não é apenas uma teoria de mercado. Eu vivi isso na pele. Quando fiz meu mestrado em Administração na FUCAPE, pesquisando o comportamento de compra de corredores, o processo era brutalmente solitário e analógico. Eu precisava ler centenas de artigos, muitas vezes de forma linear e pouco eficiente, garimpando referências cruzadas para conectar pontos. Era um esforço de força bruta.
Desde 2022, meu comportamento mudou radicalmente. Diferente daquela época, hoje não estudo mais sozinho. Tenho um “cérebro” de contexto incrível — os modelos de LLMs — que me ajuda a refletir, desafia minhas premissas e traz referências cruzadas em segundos. Mas a grande virada não foi apenas usar o ChatGPT; foi construir minha própria infraestrutura de conhecimento.
Eu saí da teoria e fui para a “mão na massa”: instalei um servidor NAS em casa, configurei um sistema operacional Linux do zero e passei a rodar LLMs locais integrados com modelos na nuvem. Criei automações e transformei anos de arquivos, documentos e apresentações de trabalho acumulados na minha trajetória profissional (tenho relatórios e históricos guardados desde 2023) em uma base RAG (Retrieval-Augmented Generation).
O resultado? O que antes levava semanas de pesquisa bibliográfica, hoje resolvo em horas de diálogo com minha própria base de dados. A inovação tecnológica (o “wow” de instalar o sistema) aconteceu uma vez. Agora, o jogo é puramente performance e eficiência. É exatamente esse movimento que as empresas precisam fazer, mas a maioria travou na fase da brincadeira. O fim do “Teatro da Inovação”.
Se nos últimos dois anos o sucesso era medido por quantos POCs (Provas de Conceito) sua empresa rodava, 2025 trouxe a fatura. O relatório recente do MIT é um balde de água fria necessário: 95% das empresas não obtiveram valor mensurável de IA este ano.
É como aquele atleta que posta a foto do treino no Strava com filtro bonito, mas não entrega tempo na prova . A McKinsey reforça esse cenário: embora 88% das empresas tenham adotado IA, apenas 6% estão vendo impacto relevante no EBIT. O que existe é um “piloto perpétuo” — muito barulho, muita experimentação, mas pouca transformação estrutural que mexa no ponteiro do negócio. As empresas estão fascinadas com a ferramenta, mas esqueceram de construir o “NAS e o Linux” dos seus processos internos.
Evolução, não Revolução (A curva em S) No meu mestrado, estudei como a percepção de valor influencia a decisão . Havia uma crença de que a tecnologia por si só criaria a demanda. Errado. A tecnologia evolui, mas a captura de valor é um processo humano e organizacional.
Os dados mostram que estamos saindo da fase de ruptura para uma fase de inovações evolutivas. Os modelos de 2025 não são deuses “ex machina”; são ferramentas de eficiência incremental. Estamos trocando o sonho da AGI imediata por modelos menores, mais baratos e especializados — assim como eu troquei a busca genérica no Google por um LLM local rodando sobre meus próprios dados. É a diferença entre tentar correr com um tênis “mágico” que promete fazer tudo e escolher o equipamento específico para cada terreno .
A armadilha da “Maturidade Organizacional” O gargalo deixou de ser tecnológico. Hoje, temos “power users” de IA que acreditam ser mais rápidos com copilotos, mas, na prática, gastam 19% a mais de tempo corrigindo erros da máquina se não tiverem o contexto correto. Isso acontece porque tentamos plugar motores de Ferrari em fuscas organizacionais.
Apenas 1% das empresas se consideram realmente maduras para escalar IA. Sem redesenhar processos, sem estruturar seus dados (como fiz com meu RAG pessoal) e sem governança, a IA é apenas um custo adicional de inferência, não uma alavanca de receita.
Seleção Natural Digital No final, voltamos à biologia básica aplicada aos negócios. A barreira de entrada técnica caiu — qualquer um pode instalar um LLM hoje —, mas a exigência de execução subiu. O que estamos vivendo é uma brutal seleção natural.
As empresas que sobreviverão a essa correção de 2025 não são as que têm os modelos mais caros ou fazem mais barulho no LinkedIn. Serão aquelas que, assim como fiz na minha rotina pessoal, conseguem “refiar” (rewire) sua organização para integrar a IA como infraestrutura invisível de performance.
A euforia passou. O mercado parou de aplaudir a promessa e começou a cobrar a performance. Sua empresa está pronta para parar de encenar inovação e começar a entregar resultado, ou vai ser eliminada na seleção natural do próximo ciclo?
O plano é hipótese. A eficiência operacional é a realidade .