Inovação

Ozempic “emagreceu” US$ 330 bilhões

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Rafael Silveira

25 de May de 2026
Crédito: Imagem: Gerada por IA por Cayowa Plano | Via Dall E

Ozempic e Novo Nordisk: o custo de não se reinventar

A Novo Nordisk tornou-se a empresa mais valiosa da Europa graças ao Ozempic. Em um único dia, perdeu US$ 40 bilhões. Do pico ao fundo, a conta chega a US$ 330 bilhões evaporados.

O que aconteceu não foi acidente regulatório. Foi a crônica de uma disrupção anunciada. A Eli Lilly não só assumiu 57% do mercado de injetáveis em 2025 como apresentou o Zepbound, que produziu 47% mais perda relativa de peso que o Wegovy em estudo comparativo. A líder do mercado estava tão focada em extrair valor do produto atual que não percebeu o concorrente trabalhando no vácuo.

O Startup Genome, no Global Startup Ecosystem Report 2025, mostra que ecossistemas saudáveis são aqueles que mantêm capacidade de reinvenção contínua. Empresas que param de se reinventar perdem relevância em qualquer setor. O mesmo relatório documenta que a velocidade de mutação do mercado já superou a capacidade de adaptação das organizações tradicionais.

O erro da Novo Nordisk é um padrão recorrente. A AON, no Global Risks Report 2024, lista a velocidade da disrupção tecnológica entre os dez maiores riscos globais, agravada pela incapacidade da governança corporativa de acompanhar mudanças estruturais. A Novo Nordisk inflou resultados com ajustes contábeis e descontos temporários. O guidance de 2026 prevê queda de até 13% no lucro operacional. A falsa sensação de segurança durou exatamente até o momento em que a realidade bateu.

O PitchBook NVCA Venture Monitor Q1 2025 registrou que apenas US$ 10 bilhões foram captados em 87 fundos de VC no primeiro trimestre, colocando o ano no ritmo da pior década em fundraising americano. Esse dado importa porque aponta para um ambiente em que o capital ficou mais seletivo. Com liquidez restrita, investidores priorizam empresas que demonstram consistência e constroem o próximo produto enquanto o atual ainda gera caixa. Quem depende de uma única fonte de receita é o primeiro a ser descartado.

A barreira de saída do cliente é zero. Se surge uma alternativa mais eficaz e barata, a lealdade pragmática do consumidor desaparece rapidamente. Versões manipuladas, competidores com pipeline agressivo e pressão regulatória, como a medida Most Favoured Nation nos EUA, reduzem a proteção de quem parecia dominante. O moat, ou seja, o fosso competitivo que parecia intransponível, virou areia.

Empresas familiares e gigantes tradicionais precisam aprender algo que startups sabem instintivamente: operar com ambidestria. De um lado, eficiência no core. De outro, autonomia para criar o que pode destruir seu próprio negócio antes que alguém o faça por você.

Se o conselho não está discutindo hoje o que pode tornar o principal produto da empresa obsoleto amanhã, a organização pode estar apenas aguardando a próxima queda.