A Rede Gov.br vem crescendo: em 2025, a própria plataforma reporta 2.556 municípios aderentes (45,89%).
O Gov.br já virou “grande o suficiente” para ser tratado como infraestrutura nacional, e não só como portal. Em 2025, a plataforma registrou 130,6 milhões de acessos únicos, acumulou 3,5 bilhões de autenticações bem-sucedidas, chegou a 170 milhões de contas ativas e passou de 12 mil serviços, sendo 4.600 federais e mais de 8 mil de estados e municípios. Esse número é o recado: o Brasil já tem escala e uma camada de identidade digital funcionando. O que falta, na prática, é transformar isso em infra compartilhada federativa.
O ponto onde “a conta fecha” não é a vitrine do serviço: é a interoperabilidade, que reduz retrabalho, tempo e fricção ao evitar que o cidadão reapresente informação que o próprio Estado já tem. O Conecta GOV.BR, que é o braço de integração de dados, reporta R$ 12,59 bilhões de economia acumulada desde 2020 e 2,18 bilhões de transações (base nov/2025); só no 1º semestre de 2025, foram R$ 3,06 bilhões com cerca de 602 milhões de transações. E a definição do jogo é justamente essa: troca automática e segura de informações para dispensar a repetição de documentos e conferências manuais.
Aí você desce pro municipal e o filme muda. A digitalização existe, mas é “rasinha”: 91% das prefeituras oferecem ao menos um serviço online, só 41% têm cinco ou mais, e o gap por porte é enorme (quanto maior o município, maior a maturidade). O nó é identidade: entre as prefeituras que exigem login em algum serviço online, apenas 13% usam login Gov.br; a maioria exige cadastro próprio (e-mail/senha), o que fragmenta a jornada e mata a reutilização da identidade. O resultado é previsível: o país vai construindo “mil identidades digitais municipais” em paralelo — mais custo, mais risco, menos interoperabilidade e uma experiência pior para o cidadão.
Por isso, a discussão séria para quem decide não é “ter portal”. É integrar identidade + dados + jornada; sem isso, o que aparece é “digitalização de vitrine” (site com formulário) em vez de serviço ponta a ponta. A Estratégia Nacional de Governo Digital 2024–2027 e a Rede Gov.br já colocam esse arranjo como política de colaboração entre União, estados e municípios, com acesso a ferramentas e infraestruturas quando disponíveis. Só que a decisão prática de gabinete continua a mesma: você vai financiar “front” (mais portais) ou vai financiar “backbone” (identidade, interoperabilidade e governança)?
A Rede Gov.br vem crescendo: em 2025, a própria plataforma reporta 2.556 municípios aderentes (45,89%). Só que adesão, sozinha, pode virar “carimbo”: o relatório é explícito ao dizer que adesão não mede integração de verdade. Na prática, falta inventário público por ente e por serviço dizendo “usa Gov.br?”, “usa Conecta?”, “qual o nível ponta a ponta?” e “qual era o tempo/custo antes e depois?”.
Um “Kit Gov.br Subnacional” (Single Sign-On (SSO) + componentes reutilizáveis e serviço-modelo) como pacote mínimo obrigatório para aderentes, com Software Development Kit (SDK) e suporte técnico. Em paralelo, um “Conecta Federativo” (API-first) para levar interoperabilidade a casos de uso de alto volume (cadastro, saúde, educação, tributos), com catálogo de APIs e governança. E, para não deixar município pequeno pra trás, a proposta de centros compartilhados (estado/consórcio como provedor de plataforma e integrações) entra como o movimento mais forte para fechar o gap de capacidade, na faixa de R$ 5 a R$ 30 milhões por estado/consórcio, em 12 a 24 meses. Na lógica de trade-off, o próprio relatório crava: kit dá ganho rápido, modernização de legado é onde a dor estrutural mora; e interoperabilidade entrega valor, mas sem governança vira risco reputacional e jurídico.
O plano de Monitoramento & Avaliação sugerido é o básico bem feito: em 0–3 meses, construir linha de base com inventário dos serviços prioritários (top 20 por volume/dor) e status de login (Gov.br vs próprio), uso de APIs, tempo médio e custo operacional aproximado; depois, em 12 e 24 meses, perseguir metas como % de serviços prioritários com SSO Gov.br, % com consulta automática via APIs (parar de pedir documento que já existe), tempo de conclusão e taxa de abandono caindo, e redução do gap de maturidade entre pequenos e grandes.
Na prática, o recado para tomador de decisão é simples e meio impopular: se você seguir financiando “site novo” como prioridade, você vai continuar comprando vitrine e pagando caro por fragmentação. O Gov.br já provou escala; agora é a hora de virar infraestrutura federativa de verdade.