As COPs falham. As startups, não. Onde o Estado não chega, a inovação floresce.
Por: Rafael Silveira
Enquanto o mundo assiste a mais uma rodada de negociações climáticas com resultados tímidos, uma revolução silenciosa acontece longe dos holofotes. As COPs, com suas promessas grandiosas e acordos frágeis, têm se mostrado um palco de frustrações. O recente financiamento de US$ 300 bilhões aprovado na COP29 é visto como insuficiente [1], e a ausência de um plano claro para a redução de combustíveis fósseis na COP30 evidencia a paralisia dos grandes acordos globais [2].
O que existe é um vácuo. Um espaço onde os estados nacionais, lentos e burocráticos, falham em entregar soluções na velocidade que a crise climática exige. Mas é exatamente nesse vácuo que o inesperado acontece. Empreendedores, especialmente em regiões como o Norte e o Nordeste do Brasil — historicamente desassistidas por capital de risco —, estão transformando problemas em modelos de negócio.
É como no ciclismo: enquanto os líderes do pelotão discutem a estratégia, um grupo de atletas aproveita o vácuo, economiza energia e se prepara para o sprint. Esses atletas são as centenas de startups que, debaixo do radar, resolvem problemas reais da transição climática. Elas não esperam por um acordo global. Elas agem.
Quem domina isso são fundadores que viram no potencial energético do Nordeste — que já responde por mais de 90% da geração eólica do país [3] — uma oportunidade. Ou que enxergam na bioeconomia da Amazônia, ainda subexplorada, um campo fértil para inovação, como já acontece no Tucuju Valley, no Amapá [4]. Eles não estão sozinhos. Contam com o apoio de um ecossistema ágil: aceleradoras como a Casa Azul Ventures, fundos de Venture Capital e programas de fomento à pesquisa como a FINEP, que entendem a urgência e o potencial de retorno.
E aí está a grande virada: a dificuldade imposta pelo mundo se torna uma carreira, um negócio, um meio de vida para quem está longe dos grandes centros. Onde o Estado falha em prover, a inovação, apoiada por um ecossistema inteligente, cria um círculo virtuoso de prosperidade e impacto.
Sem receitas prontas, mas com uma direção clara: a solução para os grandes desafios globais pode não vir de cima para baixo, mas de centenas de pequenos “sprints” que, juntos, mudam o ritmo da corrida.
Você acredita que a inovação descentralizada das startups é a resposta mais eficaz para a crise climática? O que falta para o poder público realmente apoiar essa revolução silenciosa?
O Potencial Reprimido da Transição Energética no Nordeste
O Nordeste não é apenas um polo de energia renovável; é a vanguarda da transição energética brasileira. Com 95% de sua matriz elétrica vinda de fontes limpas, a região tem um potencial gigantesco para liderar não só na geração, mas em toda a cadeia de valor: armazenamento, eficiência e tecnologias de hidrogênio verde. Startups locais estão começando a explorar esse oceano azul, criando soluções que podem escalar para o mundo. [5]
Bioeconomia na Amazônia: A Riqueza que Brota do Chão
A Amazônia é mais do que a floresta em pé. É um laboratório de bioeconomia a céu aberto. Apenas 4,6% das startups do Brasil estão no Norte, apesar de a região ocupar 45% do território [6]. Iniciativas como o Amazoom Hub em Macapá, em parceria com a Casa Azul Ventures, buscam reverter esse quadro, fomentando negócios que unem conhecimento ancestral, ciência e tecnologia para criar produtos de alto valor agregado, de cosméticos a novos materiais. [7]
Tucuju Valley: A Força da Comunidade no Meio do Mundo
No Amapá, o Tucuju Valley prova que a inovação não tem CEP. Nascida de forma orgânica, a comunidade reúne empreendedores que transformam desafios locais em negócios escaláveis. É o exemplo perfeito de como um ecossistema local, mesmo com poucos recursos, pode gerar um impacto desproporcional, criando um polo de atração para talentos e, mais recentemente, para investimentos que antes não chegavam à região. [4]
O Vácuo no Ciclismo e o Ecossistema de Inovação
A analogia com o ciclismo é poderosa. Pegar o vácuo de um atleta à frente reduz o arrasto em até 40%, permitindo economizar energia para o momento decisivo. No mundo dos negócios, as grandes corporações e os governos criam esse “arrasto”. As startups que se posicionam de forma inteligente nesse vácuo, aproveitando as brechas e as ineficiências, conseguem crescer com menos capital e mais agilidade, prontas para disparar quando a oportunidade surge.
Referências
[1] OC (2024). COP29 frustra e aprova frágeis US$ 300 bi em financiamento. Observatório do Clima.
[2] Repórter Brasil (2025). COP30 termina sem citar fósseis e reacende críticas a países.
[3] Movimento Econômico (2025). Energia: Brasil atinge 50% de renováveis, recorde graças ao NE.
[4] Agência Amapá (2025). Tucuju Valley: Conheça o grupo de empreendedores que apoia a consolidação de novas startups no Amapá.
[5] UNDP (2025). “A transição energética é uma oportunidade única em termos de desenvolvimento sustentável para o Nordeste do Brasil”, afirma especialista do PNUD.
[6] Abstartups (2023). Mapeamento do Ecossistema Brasileiro de Startups.
[7] Amazônia Empreendedora (2025). Amapá lança primeiro hub de inovação para startups da Amazônia com meta de R$ 2 milhões em investimentos.