Transformação digital: como ampliar o controle da governança

19 de Dec de 2025

O que é governança?

Por: Michael Cardoso

No setor privado, a governança corporativa surgiu como um arranjo de vigilância: conselhos, auditorias, comitês e estruturas de risco estabelecem limites para a atuação de executivos e organizam a supervisão segundo princípios de integridade e transparência, como descreve o COSO (modelo internacional que orienta práticas de governança, controles internos e gestão de riscos). Na prática, esse arranjo funciona em meio a assimetrias de informação e estruturas de poder que concentram influência. Grandes acionistas e grupos organizados costumam acessar mais dados, participar mais ativamente das discussões e moldar com maior intensidade as escolhas estratégicas, enquanto acionistas dispersos ou minoritários têm alcance muito menor sobre as decisões.

O que a transformação digital muda na governança?

No setor público, não é diferente: a democracia representativa pressupõe participação, mas estudos como os do Observatório de Desigualdades (iniciativa da Fundação João Pinheiro dedicada a analisar e divulgar dados sobre desigualdades sociais, econômicas e territoriais no Brasil) mostram que grupos de baixa renda e populações marginalizadas têm menor acesso aos mecanismos de deliberação. Outras pesquisas indicam que grande parte dos brasileiros está afastada das decisões institucionais, como apontam autores como Bolívar Lamounier.

É nesse ambiente que a digitalização passa a influenciar a forma como decisões são produzidas e supervisionadas. Nas empresas, registros automatizados e plataformas integradas ampliam a capacidade de acompanhar o uso de recursos e fortalecem o escrutínio cotidiano. Esses instrumentos aumentam a transparência e criam melhores condições para que acionistas mais distantes do centro decisório acompanhem e questionem movimentos estratégicos. No setor público, estudos do Ipea apontam que plataformas digitais de participação criam novas oportunidades de expressão cidadã, mesmo diante das persistentes barreiras de inclusão digital. Esses ambientes ampliam os pontos de acesso ao debate e adicionam camadas de monitoramento social sobre políticas e programas.

À medida que dados se tornam mais acessíveis e fluxos decisórios mais documentados, a governança passa a operar em ecossistemas expostos a acompanhamento permanente. A visibilidade do processo decisório favorece a produção de evidências, acelera a identificação de desvios e distribui oportunidades de intervenção entre um conjunto maior de atores. Práticas de influência seguem existindo, mas encontram um contexto menos dependente de círculos restritos e mais moldado por registros verificáveis.

Mais registros, mais rastreabilidade, mais transparência

A transformação digital redefine o modo como instituições constroem legitimidade e exercem autoridade. Ao multiplicar canais de voz e ampliar o monitoramento sobre decisões, produz arranjos de governança mais porosos e atentos às pressões sociais, sobretudo de grupos historicamente pouco ouvidos. A transformação digital não resolve, por si só, os impasses estruturais da governança. Mas, ao alterar o sistema de decisões cotidianas e tornar visível o que antes permanecia encapsulado, democratiza o controle distribuído – e habilita a governança mais efetiva.