Gestão de Recursos Humanos

Humberto Maturana e organizações: o papel das relações humanas

Foto de perfil do Colunista Marco Ornellas
Marco Ornellas

23 de Jun de 2026
(PraCegoVer: Imagem ilustrativa mostra um mapa-múndi estilizado, formado por polígonos em tons de verde, amarelo, laranja e marrom. Ao fundo, há uma luz quente no topo, criando efeito de nascer ou pôr do sol. Na parte inferior da imagem aparecem silhuetas de pessoas em pé, como se estivessem observando o mapa. A composição transmite ideia de globalização, relações internacionais, negócios mundiais, conexão entre países e visão estratégica global.)
Crédito: @TurgayKoca

Série: Três Mestres que Transformaram Minha Forma de Ver o Mundo e as Organizações

Ao longo da minha trajetória profissional e acadêmica, poucas influências foram tão marcantes quanto as obras de Edgar Morin, Humberto Mariotti e Humberto Maturana. Ao refletir sobre Humberto Maturana e organizações, percebo como suas ideias ajudam a compreender o papel das relações humanas na construção da cultura, da confiança e da colaboração.

Cada um deles me ajudou a enxergar uma dimensão diferente da realidade. Morin ampliou minha forma de pensar ao me ensinar a compreender a complexidade. Mariotti mostrou como essa complexidade se manifesta nas organizações e na vida cotidiana. Maturana ajudou a revelar que tudo isso acontece, antes de tudo, por meio das relações humanas.

Por que falar de Edgar Morin, Humberto Mariotti e Humberto Maturana agora?

Porque talvez nunca tenhamos precisado tanto deles.

Vivemos um tempo marcado por transformações aceleradas, avanços tecnológicos sem precedentes, polarizações, incertezas, crises de saúde mental, desafios de liderança e organizações que buscam se reinventar em um cenário cada vez mais complexo.

Há também uma razão mais pessoal. Recentemente, recebemos a notícia da partida de Humberto Mariotti. Neste mesmo período, lembramos os cinco anos da morte de Humberto Maturana e acompanhamos a despedida pública de Edgar Morin, que morreu aos 104 anos. Curiosamente, maio — mês do meu nascimento — tornou-se também um mês de memória e gratidão por esses três pensadores que influenciaram profundamente minha formação humana, acadêmica e profissional.

Esta série é um convite para conhecer três pensadores que continuam profundamente atuais para líderes, profissionais de RH e todos aqueles que buscam construir organizações mais conscientes e humanas.

3/3 Humberto Maturana e as organizações que nascem das relações

Se Edgar Morin nos ensinou a compreender a complexidade e Humberto Mariotti nos mostrou como ela se manifesta nas organizações, Humberto Maturana nos conduziu a um território ainda mais profundo: o das relações humanas.

Biólogo chileno e um dos criadores da teoria da autopoiese, Maturana foi um dos grandes pensadores da contemporaneidade. Sua contribuição parte de uma ideia simples e revolucionária: os seres vivos não são produzidos de fora para dentro. Eles se produzem continuamente por meio de suas interações.

Quando essa reflexão é trazida para o mundo das organizações, muda também a forma de compreender empresas, equipes e culturas. Uma organização não é apenas sua estrutura, seus processos ou sua estratégia.

Uma organização é uma rede de conversações. É um espaço onde relações produzem confiança ou desconfiança, colaboração ou competição, aprendizagem ou medo, engajamento ou distanciamento.

Essa visão ajuda a explicar por que tantas iniciativas organizacionais falham. Muitas empresas investem em sistemas, ferramentas e metodologias, mas negligenciam aquilo que sustenta tudo isso: a qualidade das relações humanas.

Maturana nos ensina que cultura não nasce em apresentações corporativas. Nasce na convivência. Nas conversas. Na forma como as pessoas se escutam. Na maneira como líderes tratam seus times. Na legitimidade que reconhecemos no outro.

Em um momento em que temas como saúde mental, segurança psicológica, pertencimento e colaboração ganham relevância crescente, suas reflexões tornam-se ainda mais atuais.

Talvez a principal contribuição de Maturana seja nos lembrar que organizações são sistemas vivos. E sistemas vivos precisam ser compreendidos antes de serem controlados; nutridos antes de serem cobrados; desenvolvidos antes de serem julgados.

Para quem deseja aprofundar esse pensamento, recomendo A Árvore do Conhecimento e Emoções e Linguagem na Educação e na Política.

Ao final desta série, talvez possamos perceber algo importante.

Morin nos ensinou a compreender a complexidade. Mariotti nos ajudou a lidar com ela nas organizações. Maturana nos ensinou a reconhecer as relações que sustentam a vida.

Essa reflexão também abre caminho para outro pensador fundamental das organizações: Edgar Schein. Foi ele quem demonstrou que as culturas organizacionais são construídas a partir de relações, crenças, significados e aprendizagens compartilhadas ao longo do tempo. Talvez essa seja uma boa conversa para um próximo artigo.

Porque, no fim das contas, organizações não são apenas estruturas econômicas. São comunidades humanas tentando construir, juntas, algum futuro possível.