Inovação

Aguapé: a planta que o mundo chama de praga

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Rafael Silveira

07 de Jun de 2026
(PraCegoVer: Flor lilás de aguapé em destaque, cercada por folhas verdes arredondadas sobre a água.)
Crédito: @SwapanBanik | Via Canva

Você já ouviu falar do aguapé? Aquela planta flutuante de flor lilás que cobre lagos e rios. A IPBES, ligada ao sistema ONU, aponta o aguapé como a espécie invasora mais disseminada do planeta. No lago Vitória, na África Oriental, a planta bloqueou luz, reduziu a oxigenação da água e afetou populações de tilápia e a pesca local. O relatório da IPBES estima que espécies exóticas invasoras causem US$ 423 bilhões em danos anuais ao redor do mundo. Uma erva daninha, ou praga.

Pois é. Mas alguém esqueceu de contar para os Waurá. Para eles, era solução, não problema.

No Alto Xingu, no Mato Grosso, esse povo extrai sal do aguapé há séculos. Cloreto de potássio, o KCl: um sal diferente do cloreto de sódio, o NaCl que consumimos no dia a dia, associado ao consumo excessivo de sódio. Uma lenda Waurá conta que um homem se apaixonou pela flor do aguapé, e ela se revelou uma mulher que ensinou seu povo a fazer sal das folhas. Uma equipe vinculada à Embrapa documentou essa técnica após passar 10 dias na aldeia Ulupuwene. Registros do ISA apontam a importância de proteger e manejar o sal de aguapé como patrimônio dos povos do Xingu. O sal de pacote da cidade é mais fácil, e a tradição vai junto.

Do outro lado do mundo, cientistas indianos publicaram na Springer Nature uma revisão sobre o aguapé como recurso de bioeconomia circular. Querem transformar a planta em biocombustível, papel e bioenergia. Lá, o aguapé é o mesmo pesadelo que na África: bloqueia rios, suga oxigênio da água e sufoca ecossistemas. Mas, em vez de gastar dinheiro combatendo, eles decidiram minerá-la. A expressão que usam é “water hyacinth mining”, mineração de jacinto-de-água. O mundo acadêmico despertou para algo que os Waurá conhecem há séculos.

O que me fascina é o padrão. Uma mesma espécie é praga na África, matéria-prima na Índia e sal milenar no Xingu. A diferença entre os três destinos? Conhecimento local. Os Waurá resolveram um problema que o mundo inteiro tenta combater com veneno, e fizeram isso antes de qualquer política moderna de ciência e tecnologia.

A Amazônia pode ser vista como um dos maiores laboratórios vivos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) do planeta. Séculos de observação, experimentação e manejo feitos por quem vive no território. Investir em biotecnologia amazônica é economia de descoberta, puro e simples. A próxima mudança estrutural na indústria pode estar flutuando num lago do Mato Grosso, esperando alguém olhar com os olhos certos. Os Waurá já olharam. Nós é que não estamos prestando atenção.

Nota

  • Para conhecer mais sobre a técnica tradicional de extração de sal a partir do aguapé entre os Waurá, assista ao vídeo da Embrapa clicando aqui.