Gestão de Recursos Humanos
Jornada de trabalho: além das horas, é preciso olhar para o desenho do trabalho
Marco Ornellas
16 de Apr de 2026
(Para cego ver: Homem de óculos, com expressão cansada, está sentado à mesa de trabalho. Ele segura um relógio despertador ao lado do computador e de papéis espalhados.)
Crédito: @elnur/ Canva
A discussão sobre jornada de trabalho voltou ao centro das organizações. Semana de quatro dias, modelos híbridos, retorno ao presencial. O tema ganhou força, e também simplificações perigosas.
Mas talvez estejamos olhando para o lugar errado.
A pergunta não deveria ser “quantas horas trabalhamos”. A formulação mais honesta talvez seja outra:como o trabalho está sendo desenhado?
O problema não está só no tempo
Porque reduzir jornada sem revisar o modelo de trabalho é apenas comprimir o mesmo volume, e muitas vezes a mesma desorganização, em menos tempo. E isso não gera bem-estar. Gera mais pressão.
O que vemos hoje em muitas empresas é um sistema marcado por excesso de reuniões, fragmentação constante, múltiplas prioridades e baixa clareza de decisão. A sobrecarga não está no tempo disponível e sim na forma como ele é consumido.
Existe ainda uma tensão mal resolvida entre controle e autonomia. Organizações seguem operando com lógicas de supervisão e presença. Pessoas buscam flexibilidade, confiança e sentido. No meio disso, surgem modelos híbridos que muitas vezes não são nem uma coisa nem outra, apenas adaptações de um modelo que já não responde à complexidade atual.
Um caso recorrente é o de empresas que adotam políticas de flexibilidade, mas mantêm rituais, metas e formas de controle pensadas para outro contexto. O resultado é um aumento silencioso da pressão.
A verdade incômoda é que não estamos discutindo apenas jornada. Estamos evitando discutir o desenho do trabalho.
E isso envolve escolhas mais profundas: como priorizamos, como decidimos, como organizamos fluxos, como distribuímos responsabilidades e como lidamos com atenção e energia.
Sem isso, qualquer mudança será superficial.
Na prática, a questão central é simples: a discussão sobre jornada está ficando na superfície ou está levando, de fato, a um redesenho do trabalho?
Essa é uma conversa que exige menos foco na contagem de horas e mais atenção à forma como o trabalho é estruturado no dia a dia.
- Para aprofundar, vale a leitura do livro Essencialismo: A disciplinada busca por menos, de Greg McKeown. A obra traz uma reflexão poderosa sobre foco, escolha e a importância de eliminar o que não gera valor, em um contraponto direto à lógica da ocupação constante nas organizações.