Gestão de Recursos Humanos

Produtividade em discurso: o paradoxo do nosso tempo

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Marco Ornellas

10 de Apr de 2026
(Para cego ver: mulher sentada à mesa, com as mãos na cabeça e expressão de cansaço ou preocupação, diante de papéis e um laptop. Em primeiro plano, há um relógio despertador e, sobre a mesa, também aparecem uma xícara e documentos espalhados. O ambiente sugere pressão, sobrecarga e estresse no trabalho.)
Crédito: @madalina_todicas_/ via Canva.com

Vivemos em uma sociedade que cobra produtividade como mantra. Empresas pressionam por metas mais agressivas, líderes falam de alta performance e eficiência virou sinônimo de virtude. Ao mesmo tempo, convivemos com um calendário repleto de feriados estrategicamente posicionados nas segundas e sextas-feiras, um ano marcado por Copa do Mundo, eleições e um fluxo constante de distrações coletivas. O contraste é evidente — e raramente debatido com honestidade.

Não se trata de criticar feriados, eventos esportivos ou processos democráticos. Todos são legítimos, importantes e fazem parte da vida social. O problema está na incoerência: exigimos foco, entrega e comprometimento, mas organizamos o tempo coletivo de forma fragmentada, intermitente e pouco refletida. Queremos intensidade, mas normalizamos a dispersão. Falamos de resultado, mas evitamos conversar sobre ritmo, energia e maturidade organizacional.

O impacto disso aparece no cotidiano das empresas. Semanas quebradas, decisões adiadas, agendas que não se sustentam, reuniões esvaziadas. Depois, a conta chega na forma de urgência artificial, horas extras, pressão concentrada e sensação permanente de atraso. Não é falta de capacidade produtiva — é falta de desenho consciente do trabalho.

Copa do Mundo, eleições e feriados não são o problema. O problema é fingir que nada disso afeta o funcionamento das organizações. É manter metas irreais enquanto o contexto pede adaptação. É cobrar presença emocional quando o sistema inteiro convida à desconexão. Mais uma vez, tratamos sintomas e ignoramos causas.

Esse paradoxo revela algo mais profundo: confundimos produtividade com ocupação e intensidade com valor. Produzir mais não é trabalhar mais horas, nem eliminar pausas. Produzir melhor exige clareza, priorização, coordenação e acordos explícitos sobre como operamos em contextos complexos e instáveis.

O RH diante de um modelo de trabalho pouco sustentável

E, novamente, o RH se vê diante de uma escolha. Vai apenas administrar o calendário, reagir aos impactos e apagar incêndios? Ou vai ajudar a organização a pensar o trabalho de forma mais adulta, reconhecendo os ciclos sociais, culturais e emocionais que atravessam o ano?

Falar de produtividade sem falar de contexto é ingenuidade. Ignorar o efeito desses movimentos coletivos é miopia. O papel do RH não é negar a realidade, mas integrá-la ao desenho do trabalho, à comunicação com as lideranças e à construção de expectativas mais realistas e sustentáveis.

Talvez a pergunta que precise ser feita não seja “como produzir mais?”, mas como queremos trabalhar como sociedade? Que tipo de maturidade organizacional estamos dispostos a construir quando o mundo ao redor nos chama para múltiplas direções ao mesmo tempo?

No fim, produtividade não se sustenta na negação do contexto. Ela nasce da capacidade de reconhecê-lo, dialogar com ele e fazer escolhas mais conscientes. O resto é apenas discurso — repetido entre um feriado prolongado e o próximo evento que paralisa o país.