Trabalho remoto, presencial ou híbrido: aprendizados, contradições e o risco do retrocesso
Marco Ornellas
05 de Apr de 2026
[Para cego ver] Mãos de uma pessoa digitando em um laptop sobre uma mesa redonda branca, com a tela exibindo um sistema com uma tabela de dados e opções de filtro.
Crédito: Dylan Gillis/Unsplash
Poucos temas escancararam tanto as contradições do mundo do trabalho quanto a discussão sobre trabalho remoto, presencial ou híbrido. Em poucos anos, fomos obrigados a rever crenças, acelerar aprendizados e experimentar modelos que, até então, eram tratados como exceção ou privilégio. Descobrimos que era possível trabalhar, colaborar, decidir e entregar resultados fora dos escritórios tradicionais. Descobrimos, sobretudo, que confiança e autonomia produzem mais do que controle excessivo.
Mas, passados os momentos mais críticos da pandemia, algo curioso — e preocupante — começou a acontecer. Muitas organizações passaram a agir como se nada tivesse sido aprendido. O discurso da flexibilidade deu lugar ao retorno forçado, pouco dialogado, muitas vezes sustentado mais por crenças antigas do que por dados, evidências ou escuta genuína das pessoas.
O debate foi empobrecido. Em vez de discutirmos qual modelo faz mais sentido para cada tipo de trabalho, equipe e contexto, caímos em narrativas simplistas: “presencial gera cultura”, “remoto reduz performance”, “híbrido é confuso”. Pouco se fala sobre maturidade de gestão, qualidade da liderança, clareza de objetivos, desenho do trabalho e saúde organizacional — fatores que, esses sim, determinam o sucesso de qualquer modelo.
Há aprendizados incontestáveis. O trabalho remoto ampliou acesso, diversidade e qualidade de vida para muitas pessoas. O presencial segue sendo potente para criação de vínculos, trocas informais e construção simbólica. O híbrido, quando bem desenhado, pode equilibrar foco e convivência. O problema não está nos modelos em si, mas na incapacidade de desenhá-los com inteligência, cuidado e responsabilidade.
Os retrocessos aparecem quando o controle volta disfarçado de cultura, quando a desconfiança substitui o diálogo e quando decisões são tomadas sem considerar impactos humanos, emocionais e sociais. Voltar ao “como era antes” não é estratégia — é negação da complexidade que se impôs.
Para o RH, esse tema é um espelho incômodo. Não se trata apenas de política de trabalho, mas de posicionamento ético, organizacional e humano. Que tipo de organização estamos ajudando a construir? Uma que aprende com a experiência ou uma que se apega ao passado por medo do novo?
No fim, a pergunta que fica não é qual modelo escolher, mas como escolhemos. Com escuta ou imposição? Com dados ou achismos? Com coragem ou conveniência?
Talvez o maior desafio do RH hoje seja este: em um mundo que já mudou, teremos coragem de sustentar escolhas mais maduras — ou seguiremos normalizando retrocessos em nome de uma falsa segurança?